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A epidemia da desinformação e como o cérebro processa as mentiras

Fernando Gomes

03/04/2020 04h00

Crédito: iStock

O primeiro dia de abril é conhecido como o famoso "dia da mentira". Em meio à pandemia de covid-19 e às inúmeras informações falsas que circulam sobre algo totalmente novo para o mundo, é preciso entender, o que de fato acontece no cérebro humano para que algumas pessoas contem mentiras e o que fazem outras acreditarem em fatos irreais.

Existe um circuito cerebral responsável pela mentira que é capaz de criar um fato e ao mesmo tempo ter a noção do perigo dessa inverdade. E como o nosso senso crítico nos permite criar sem perder o juízo? São os lobos frontais do nosso cérebro os grandes responsáveis pela manipulação dos pensamentos, que representam uma importante aquisição neurobiológica da espécie humana. É nesta região onde a decisão de omitir um fato, criar uma história ou mentir, acontece. No córtex pré-frontal e no giro do cíngulo anterior, também localizados na parte anterior do cérebro, mora o nosso senso crítico, famoso juízo ou bom senso, nos mesmos lobos frontais, que nos permitem escutar o nosso bom senso.

Claro que existem pessoas que deixam a mentira falar mais alto, vivem mais no mundo da fantasia e criam tantas inverdades que acabam acreditando nelas. Além disso, as amígdalas cerebrais, localizadas nos lobos temporais, progressivamente deixam de ficar eletricamente excitadas quando se acostumam com o suposto medo que o todo "mentiroso de primeira viagem" tem de ser desmascarado. Isso também é neuroplasticidade comportamental.
Bem, aí mora o perigo e daí também vem a explicação do porque as histórias falsas se espalharam com mais facilidade do que as histórias verdadeiras.

O ser humano tem uma tendência natural e até espontânea de reforçar as suas próprias crenças e a desconsiderar opiniões divergentes. Se uma pessoa ou um grupo diverge sobre um tema, ela muitas vezes prefere se afastar do que ficar tentando expor, justificar e impor a sua opinião. O cérebro gosta disso porque economiza energia. Então, é esperado que algumas pessoas acreditem em notícias que digam o que elas querem ouvir, mesmo que a mensagem seja absurda.

A neurociência investiga respostas em relação à atividade cerebral diante do recebimento e da crença em fake news. Mas, sabemos que uma pessoa com uma forte crença ou ideologia quando se depara com informações que a contradizem, começa a construir novas maneiras de pensar sobre essa informação em vez de se atualizar sobre a sua crença. Em outras palavras, o cérebro cria uma espécie de defesa cognitiva para lidar com informações conflitantes, e assim, fica mais fácil acreditar em um boato se este estiver de acordo com a própria visão, em vez de aceitar uma realidade que desagrada.

É um padrão de comportamento natural do ser humano que aparece sempre que a estrutura de um pensamento arraigado é desafiada. A criatividade aflora e a fantasia passa a ser apenas um detalhe para a construção da réplica.
Mas, o importante de tudo isso é domar essa tendência natural que habita a mente humana e não deixar a criatividade ultrapassar as barreiras éticas. Por mais que você ache que tem controle sobre a recepção de notícias falsas, acredite: muita gente consente fatos ilusórios e, ainda dissemina informações que prejudicam um número imenso de pessoas. É dever de todos nós sermos responsáveis e apenas direcionarmos esse poder criativo para atividades onde a fantasia é fundamental, como, por exemplo, para as artes.

Neurodicas

  • Escolha fontes confiáveis para se informar e tirar suas dúvidas sobre qualquer que seja o assunto;
  • Cuidado com as informações que circulam em grupos de bate papo;
  • Entenda que o seu cérebro se alegra quando recebe informações que lhe fazem bem e tende a propagar isso como verdade, mas nem sempre essas são as corretas;
  • Não distribuía notícias duvidosas sem antes checar os fatos;
  • Não inunde seu cérebro com informações, isso pode gerar pânico, medo e desespero sem necessidade.
Referência:
Van Bavel JJ, Pereira A. The Partisan Brain: An Identity-Based Model of Political Belief. Trends Cogn Sci. 2018;22(3):213–224.

Sobre o Autor

Fernando Gomes é neurocirurgião e neurocientista, graduado em medicina pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Concluiu Residência Médica em neurologia e neurocirurgia no HC (Hospital das Clínicas) da FMUSP e possui título de especialista em neurocirurgia pela SBN (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia). É pós-graduado em neurocirurgia pediátrica pela World Federation of Neurosurgical Societies, doutor em neurotraumatologia experimental pela FMUSP e professor livre-docente pela disciplina de neurocirurgia da FMUSP. Autor de 8 livros ligados à medicina e ao comportamento humano, consultor e apresentador do quadro “E agora, doutor?” do programa “Aqui na Band” da Rede Bandeirantes de Televisão.

Sobre o Blog

Com temas ligados a medicina e a neurociência, esse espaço é dedicado a viajar pelo cérebro humano e desvendar os mistérios da mente. Com explicações simples e embasadas cientificamente, por aqui é possível passear pela maior e mais poderosa máquina que mora dentro da cabeça de todos os seres humanos. E, ao desvendar os aspectos físicos e comportamentais das habilidades, emoções e necessidades do comportamento humano fica mais fácil aplicar técnicas e novos hábitos para que rotina seja leve, saudável e prazerosa e turbinada em todos os aspectos.

Fernando Gomes