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O poder da música: tocar bateria deixa o cérebro mais inteligente

Fernando Gomes

13/12/2019 04h00

Crédito: iStock

Diversos estudos já comprovaram que tocar instrumentos musicais estimula diversas áreas do cérebro, mas um recente, publicado na revista Brain and Behavior, provou que os sons emitidos pela bateria possuem maior difusão microestrutural no corpo caloso – uma área do cérebro que conecta os dois hemisférios e que desempenha um papel crítico no planejamento motor.

A neurociência já provou que tocar um instrumento musical pode mudar o cérebro através de processos neuroplásticos, mas os bateristas, especificamente, nunca haviam sido estudados anteriormente. Agora, uma pesquisa liderada por Lara Schlaffke da clínica universitária Bergmannsheil em Bochum, na Alemanha, e pelo professor associado Sebastian Ocklenburg da unidade de pesquisa em biopsicologia da Ruhr-Universität Bochum utilizou exames de ressonância magnética para demonstrar que pessoas que tocam bateria regularmente há anos diferem das pessoas não-musicais tanto na estrutura como na função cerebral.

Os resultados deste estudo sugeriram que os bateristas apresentam menos, porém mais espessas, fibras no trato principal de conexão entre as duas metades do cérebro. Além disso, as áreas cerebrais motoras são organizadas de forma mais eficiente e a coordenação motora supera muito a de pessoas não treinadas.

A maioria da população só pode executar tarefas motoras finas com uma mão e tem problemas para tocar ritmos diferentes com as duas mãos ao mesmo tempo, mas os bateristas podem fazer coisas "impossíveis" se comparadas às outras pessoas que não possuem este dom.

Na pesquisa foram analisados 20 bateristas submetidos a exames de ressonância magnética de encéfalo que fornecem informações sobre a estrutura e função do cérebro e então apresentaram diferenças claras na parte frontal do corpo caloso, uma estrutura cerebral que conecta os dois hemisférios e cuja parte frontal é responsável pelo planejamento motor. Esse fenômeno é chamado de amostragem esparsa: uma organização cerebral mais eficiente nas áreas leva a menos ativação nos profissionais.

O estudo é mais uma comprovação que vai ao encontro das evidencias que comprovam o poder que a música tem em afetar positivamente a estrutura e a função de diferentes regiões do cérebro, alterando o modo como elas se comunicam e a reação do cérebro a diferentes estímulos sensoriais. De modo geral, todo aprendizado musical tem o potencial de promover a neuroplasticidade, bem como se tornar uma ferramenta educacional, tratando as dificuldades de aprendizagem.

E não é só isso, para aqueles que não se julgam capazes de aprender um instrumento musical, a boa notícia é que só o fato de ouvir música já provoca transformações positivas no cérebro. Isso porque tecnicamente, quando começamos a ouvir uma canção, as ondas sonoras que são emitidas por um instrumento, alto-falantes ou fones de ouvido estimulam mecanicamente nossos tímpanos e esse movimento faz com que a via auditiva transforme essa energia em impulsos elétricos no sistema nervoso e todas as áreas do cérebro conversam entre si.

Esses sinais atingem o córtex auditivo –uma parte do cérebro que analisa o som e o distingue entre volume, o tom e o entendimento do ritmo. Quando o som entra pelos ouvidos, outras áreas do cérebro também são ativadas: movimento, memória, atenção e evocam uma emoção positiva extremamente benéfica ao cérebro.

Neurodicas

  • Permita-se ouvir música enquanto estiver no carro, dentro de um ônibus, em casa ou fazendo uma atividade física;
  • Perceba que o ritmo da música pode te animar, te relaxar e evocar lembranças;
  • Deixe que apenas as memorias boas floresçam ao som de uma canção;
  • Escolha a música certa. A melodia e a chamada escala tonal das canções influenciam a forma como nosso cérebro vai reagir à elas;
  • Coloque sons da natureza como uma alternativa;
  • Se algum instrumento lhe provoca a curiosidade para aprender, entenda que o seu cérebro é mutável através da plasticidade neural das sinapses, e em qualquer fase da vida ele pode ser ensinado e treinado a tocar algo que te faz bem.
Referência:
Schlaffke L, Friedrich S, Tegenthoff M, Güntürkün O, Genç E, Ocklenburg S. Boom Chack Boom-A multimethod investigation of motor inhibition in professional drummers. Brain Behav. 2019 Dec 4:e01490.

Sobre o Autor

Fernando Gomes é neurocirurgião e neurocientista, graduado em medicina pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Concluiu Residência Médica em neurologia e neurocirurgia no HC (Hospital das Clínicas) da FMUSP e possui título de especialista em neurocirurgia pela SBN (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia). É pós-graduado em neurocirurgia pediátrica pela World Federation of Neurosurgical Societies, doutor em neurotraumatologia experimental pela FMUSP e professor livre-docente pela disciplina de neurocirurgia da FMUSP. Autor de 8 livros ligados à medicina e ao comportamento humano, consultor e apresentador do quadro “E agora, doutor?” do programa “Aqui na Band” da Rede Bandeirantes de Televisão.

Sobre o Blog

Com temas ligados a medicina e a neurociência, esse espaço é dedicado a viajar pelo cérebro humano e desvendar os mistérios da mente. Com explicações simples e embasadas cientificamente, por aqui é possível passear pela maior e mais poderosa máquina que mora dentro da cabeça de todos os seres humanos. E, ao desvendar os aspectos físicos e comportamentais das habilidades, emoções e necessidades do comportamento humano fica mais fácil aplicar técnicas e novos hábitos para que rotina seja leve, saudável e prazerosa e turbinada em todos os aspectos.

Fernando Gomes