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Fernando Gomes

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Em excesso, a atividade física pode prejudicar o cérebro

Fernando Gomes

11/10/2019 04h00

Crédito: iStock

Praticar atividade física faz muito bem para o corpo e para a mente –isso é fato — mas, quando o atleta erra a mão e comete excessos, quem sofre são os músculos, ossos, tendões e … o cérebro!

Isso está provado por cientistas franceses do Hôpital de la Pitié-Salpêtrière que conduziram uma pesquisa com 38 atletas de alto rendimento e comprovaram, por meio de questionários e exames de imagem, que aqueles que se exercitaram em excesso sofreram alterações na porção lateral do córtex pré-frontal, região do cérebro que controla o sistema cognitivo, e estiveram muito próximos de um burnout.

Para quem não sabe, o burnout é uma fadiga mental extrema, que causa apagões, cansaço e dificuldades cognitivas. Uma das principais consequências é a impulsividade e as más escolhas nas tomadas de decisões. No caso do estudo, os atletas foram convidados a decidir sobre investimentos financeiros e o resultado foi péssimo para os que estavam exaustos depois do excesso de esforço físico.

E atenção: 40% a mais de atividade física já causa 4 vezes mais cansaço mental. Mas, tem como prevenir isso? Sim, primeiro, não treine mais do que a periodização prescrita para você. É perigoso, pode causar lesões e não vale a pena. Depois, respeite seu corpo e permita-se descansar. O descanso é parte do treino já que é por meio dele que o organismo se recupera e se prepara para alcançar seus objetivos.

A descoberta evidencia a relação direta entre o esforço corporal e o cognitivo, e vai ao encontro da conexão entre o corpo e mente. Para se ter o melhor controle cognitivo possível é necessário manter o cérebro saudável e livre de sobrecargas para que a mente fique turbinada.

Não se esqueça nunca que também é possível –e necessário — exercitar o cérebro, mas como ele não é um músculo, a malhação ali acontece com o que demanda alta concentração como em atividades cujos treinos aprimoram a memória e o pensamento estratégico, por exemplo resolver palavras cruzadas, jogar xadrez ou ler. Por isso que os treinamentos físicos são de extrema importância para o bom funcionamento cerebral, e eu repito: apenas o overtraining –aquele treino em excesso pode causar esgotamento e fadigar o sistema cerebral de controle cognitivo.

E, de fato, todo mundo precisa desse controle para evitar qualquer comportamento impulsivo, incluindo o aviso que você precisa ouvir internamente para interromper o esforço físico quando sente dor ou quando prejudica alguma parte do corpo pelo treinamento intenso.

Neurodica

Continue treinando, mas sempre com equilíbrio e moderação para que você passe longe da linha tênue que fica entre o saudável e o prejudicial.

Saiba mais

Blain B, Schmit C, Aubry A, Hausswirth C, Le Meur Y, Pessiglione M. Neuro-computational Impact of Physical Training Overload on Economic Decision-Making. Curr Biol. 2019 Oct 7;29(19):3289-3297.

Sobre o Autor

Fernando Gomes é neurocirurgião e neurocientista, graduado em medicina pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Concluiu Residência Médica em neurologia e neurocirurgia no HC (Hospital das Clínicas) da FMUSP e possui título de especialista em neurocirurgia pela SBN (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia). É pós-graduado em neurocirurgia pediátrica pela World Federation of Neurosurgical Societies, doutor em neurotraumatologia experimental pela FMUSP e professor livre-docente pela disciplina de neurocirurgia da FMUSP. Autor de 8 livros ligados à medicina e ao comportamento humano, consultor e apresentador do quadro “E agora, doutor?” do programa “Aqui na Band” da Rede Bandeirantes de Televisão.

Sobre o Blog

Com temas ligados a medicina e a neurociência, esse espaço é dedicado a viajar pelo cérebro humano e desvendar os mistérios da mente. Com explicações simples e embasadas cientificamente, por aqui é possível passear pela maior e mais poderosa máquina que mora dentro da cabeça de todos os seres humanos. E, ao desvendar os aspectos físicos e comportamentais das habilidades, emoções e necessidades do comportamento humano fica mais fácil aplicar técnicas e novos hábitos para que rotina seja leve, saudável e prazerosa e turbinada em todos os aspectos.

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