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É como andar de bicicleta: entenda por que não esquecemos essa ação

Fernando Gomes

04/10/2019 04h00

Crédito: iStock

É como se o cérebro tivesse um botão… E certas habilidades pudessem ficar apagadas por anos e anos dentro dele, mas que são capazes de serem reacendidas por um clique em apenas milissegundos

Quando uma conexão cerebral é estabelecida, ou seja, depois que o cérebro aprende a executar uma tarefa, naturalmente o órgão adquire a capacidade de restaurar essa habilidade já assimilada. É assim que acontece com algumas funções como, por exemplo, andar de bicicleta, em que nas próximas vezes que essa tarefa aparecer na sua frente, em questão de milissegundos, essa capacidade já armazenada rapidamente se reacende. Assim, mesmo depois de anos sem subir sobre duas rodas, as conexões cerebrais buscam as informações da primeira vez em que a ação foi aprendida.

Mas por que então essa super habilidade de memorização não acontece com tudo o que aprendemos? Eu explico. Apesar de não conseguirmos lembrar de tudo que acontece, o cérebro tem como característica principal armazenar para sempre o que é necessário e utilizar tais informações. Porém, possui uma regra do que é essencial ou não.

Atividades como caminhar, dançar, tocar um instrumento, dirigir, escrever e andar de bicicleta são entendidas pelo cérebro como importantes para a nossa vida e sobrevivência. Por isso, ficam armazenadas nos lobos frontais e num sistema especial, chamado extra-piramidal, que é localizado nos gânglios da base e no cerebelo –parte responsável pelo controle do tônus muscular, do equilíbrio, dos movimentos voluntários e automáticos. Assim, elas formam um conhecimento preciosamente armazenado que surge de forma inconsciente quando a pessoa necessita utilizá-los.

Isso não acontece apenas com atividades motoras, mas também com questões emocionais que regem uma personalidade. É o que chamamos de padrão de comportamento e de características que comandam o jeito de uma pessoa.

Por isso que a maioria das pessoas podem ser "previsíveis". É que quando surge um problema, automaticamente o cérebro faz algumas conexões que, inevitavelmente, nos fazem agir sempre num padrão específico. E assim uns serão mais calmos, outros mais estressados, mais explosivos, e por aí vai.

É que a partir da repetição de comportamento e da capacidade de lidar com problemas e questões, cria-se uma regra, que é sempre utilizada de forma automática e inerente à pessoa. É como se o cérebro também aprendesse que diante de um ato ou de um fato já exista uma pré-determinação do que tem que ser feito. E então, ele acende a luz automática do que se deve fazer –a mesma que é acionada ao subir numa bicicleta.

Benefícios cientificamente comprovados

Falando nisso, andar de bicicleta traz vantagens já comprovadas para o cérebro. É o que mostrou um recente estudo desenvolvido no Reino Unido. Andar de bicicleta pode melhorar a função cognitiva, a saúde mental e o bem-estar ao longo da vida.

Participaram deste experimento, durante 8 semanas, 100 pessoas com idade entre 50 a 83 anos. Elas foram organizadas em 3 grupos: (A) composto por 26 não praticantes de ciclismo, (B) com 36 ciclistas convencionais e (C) com 38 usuários de bicicletas elétricas.

Os grupos que pedalavam (convencionais e bicicletas elétricas) se exercitaram três vezes por semana durante trinta minutos. A função cognitiva e o bem-estar deles foram medidos, antes e após o período de intervenção. Esses grupos melhoraram as funções cerebrais após a intervenção em comparação aos participantes do estudo que não eram adeptos do ciclismo. E mais que isso, o time da bicicleta elétrica melhorou a saúde mental em relação aos não praticantes de nenhum tipo de ciclismo.

Os efeitos ainda foram maiores para o grupo das bicicletas elétricas em comparação com os ciclistas de bicicletas convencionais. Isso sugere que não é apenas o ato de pedalar (o exercício físico em si) que provoca a boa influência, mas sim todo o envolvimento com o ambiente ao ar livre e com a natureza que oferece sempre mais benefícios –outros fatores que já sabemos, também comprovadamente, que influenciam positivamente na saúde cerebral.

Neurodica

E já que nunca esquecemos como andar de bicicleta, que tal um passeio na magrela ao ar livre? Só não esqueça de usar os equipamentos de segurança e de seguir as leis de trânsito.

Referência
Leyland LA, Spencer B, Beale N, Jones T, van Reekum CM. The effect of cycling on cognitive function and well-being in older adults. PLoS One. 2019 Feb 20;14(2):e0211779.

Sobre o Autor

Fernando Gomes é neurocirurgião e neurocientista, graduado em medicina pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Concluiu Residência Médica em neurologia e neurocirurgia no HC (Hospital das Clínicas) da FMUSP e possui título de especialista em neurocirurgia pela SBN (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia). É pós-graduado em neurocirurgia pediátrica pela World Federation of Neurosurgical Societies, doutor em neurotraumatologia experimental pela FMUSP e professor livre-docente pela disciplina de neurocirurgia da FMUSP. Autor de 8 livros ligados à medicina e ao comportamento humano, consultor e apresentador do quadro “E agora, doutor?” do programa “Aqui na Band” da Rede Bandeirantes de Televisão.

Sobre o Blog

Com temas ligados a medicina e a neurociência, esse espaço é dedicado a viajar pelo cérebro humano e desvendar os mistérios da mente. Com explicações simples e embasadas cientificamente, por aqui é possível passear pela maior e mais poderosa máquina que mora dentro da cabeça de todos os seres humanos. E, ao desvendar os aspectos físicos e comportamentais das habilidades, emoções e necessidades do comportamento humano fica mais fácil aplicar técnicas e novos hábitos para que rotina seja leve, saudável e prazerosa e turbinada em todos os aspectos.

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